Ana Gandum (b. Évora, 1983) is a historian and visual artist whose research focuses on the relationship between photography, memory and history. Her academic career began with a degree in History (Universidade NOVA de Lisboa – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas 2001-2005), followed by a Master 2 in ‘Histories, Powers, Knowledges’ (University Paris 8 – Saint-Denis, 2005-2007), and a PhD in Artistic Studies – Art and Mediations (Universidade NOVA de Lisboa – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, 2013 – 2019, with a stint at ECO – UFRJ between 2015-2017). Her practice includes writing essays and chronicles, archival research and a reflection on the concept of archive, photographic exhibitions and authorial publications. She was a lecturer in Visual Culture at the Universidade NOVA de Lisboa – FCSH and the University of Madeira. She is an integrated member of ICNOVA – Nova University Institute of Communication and works at the Regional Direction of Archives Librairies and Book, where she researches photographic collections and photography books.
aqui já está sumindo eu / ici je suis déjà en train de disparaître
Images: courtesy Ana Gandum
aqui já está sumindo eu / ici je suis déjà en train de disparaître
Ana Gandum | July 2025
O original das cópias
Algures no segundo semestre do já longínquo ano de 2019, Filipe Figueiredo e Cosimo Chiarelli lançaram-me o desafio de pensar uma acção performática a partir de textos e imagens reunidos em anos anteriores, no âmbito de um doutoramento em estudos artísticos que teve a fotografia como objeto de estudo central e que contou com a orientação da saudosa professora Margarida Medeiros (1957 – 2024). Essa pesquisa sobre a fotografia como acto postal desenvolveu-se a partir de retratos que circularam entre o Brasil e Portugal como souvenirs em correspondências pessoais, afetivas, de portugueses ali migrados e seus familiares distantes, do outro lado do Atlântico.
Numa conversa no café que fica ao lado da biblioteca da universidade de letras, em Lisboa – onde poucos meses antes tinha escondido uma cópia de uma dessas fotografias com a identificação dos locais por onde a prova original circulou -, Filipe falou-me do projecto Perphoto – dramaturgias do olhar, referindo que visava abordar diferentes relações entre a fotografia e as artes performativas. Uma das vertentes do projecto era um ciclo de pequenas performances a decorrer em Lisboa no ano seguinte. A minha integraria o módulo “performar o arquivo”, o que dado o meu campo de interesses em torno da lata questão “arquival” associada à fotografia, as leituras então recentes e as acções desenvolvidas nos anos anteriores, me parecia particularmente relevante.
Mas das artes de palco apenas na música tinha uma (breve) experiência e, convivendo com regularidade com actores, performers, bailarinos, encenadores de teatro, tinha não só um grande respeito pela exigência, disciplina e treino que o seu trabalho implica como nenhum aparente desejo de me ver ocupar esse lugar.
Se aparentemente aceitei de pronto o convite, foi por ter vislumbrado na proposta para um acto de criação uma possibilidade mais propriamente fotográfica do que performática na apresentação perante um público; para mim, esta era particularmente apelativa após anos de proximidade – mas também de estranhamento – com várias fotografias de família (também elas estranhas à minha própria família) e com memórias tecidas a partir delas que até aí não tinham tido expressão. Aliás, que tinham tido certas expressões, emergências, abordagens (na tese, em livros, apresentações em conferências), mas não uma determinada expressão que se prendia com a sua própria capacidade em assumir várias expressões. Esta possibilidade era também a da incidência através da acção física da presença (discreta) do meu corpo num espaço, dos gestos das mãos, do ritmo e do movimento das palavras, de desencantar processos de revelação (fotográficos, poderia dizer) de narrativas associadas à mostra e sequência das imagens. Essas narrativas, por sua vez, suscitavam a meu ver novas imagens que influíam nos sentidos aparentes daquelas que apresentava, juntava, retirava, ou que a eles escapavam. Sobreposições, derivas, errâncias dos sentidos e das próprias imagens.
Por um acúmulo grande de trabalho e razões pessoais nem sempre felizes que incluíram processos de perda e luto, não tive praticamente oportunidade de pensar na performance nos meses que se seguiram. Entretanto, chega o ano de 2020, com ele a pandemia e o confinamento, tendo apenas havido uma sessão ao vivo do ciclo de apresentações previstas para o Atelier de Lisboa, a da autoria de Eduardo Breda. Confinados, algum tempo depois, reuníamos online (nós performers e os curadores do Perphoto) para reagendar as sessões e repensar as apresentações para uma modalidade também online que não comprometesse a natureza das propostas idealizadas, ainda que isso pudesse implicar a reformulação quase total dos projectos. No meu caso, não houve praticamente tradução ou adaptação para um outro formato: tratou-se, desde este agora início, de pensar um processo (de montagem, de ensaios) inteiramente concebido para o meio ecrã e não para o palco. E assim foi. Praticamente um ano após essa conversa, apresentava online, em Fevereiro de 2021, aqui já está sumindo eu, tendo em Junho desse mesmo ano feito nova apresentação para o grupo de estudos Imagem/Tempo, a convite do (também saudoso) professor Mauricio Lissovsky (1958 – 2022), co-orientador da minha tese de doutoramento, a qual se baseou em muitas das imagens ali exibidas perante e através da tela luminosa, incididas (ou desfasadas) através do recito vocal. Na altura, achei que se encerrava um ciclo iniciado em 2016, composto pelas várias acções em torno de um mesmo corpus fotográfico. Essas abordagens distintas – textos, exposições, publicações, uma tese – assumiram títulos diferentes, como Lembranças, Souvenirs, Recuerdos: fotografia e migração portuguesa para o Brasil, aqui sou eu / aqui já está sumindo eu ou apenas aqui já está sumindo eu. A variação dos títulos de algum modo acompanhou a diferença dos gestos ou mesmo linguagens disciplinares que, simultaneamente, (re)activavam, animavam e diferenciavam essas fotografias. Diferenciavam-nas não só umas das outras como tentavam dar a ver como elas se diferenciavam de si próprias, ou seja, como as imagens adquiriam novos sentidos e camadas de leitura, consoante eram vistas e lidas numa tese, numa exposição, numa publicação, em crónicas para periódicos, etc. Um desses gestos ou abordagens foi uma edição em três versões de um livro-fichário feito em co-autoria com a antropóloga Daniela Rodrigues*, associando este aqui já está sumindo eu às coisas de lá da sua pesquisa – as coisas levadas e trazidas em malas por portugueses que estavam no Rio de Janeiro (então) desde há cerca de dez anos, no máximo.
A expressão – aqui já está sumindo eu – tornou-se uma espécie de tropo de um processo de confronto, através da fotografia, não só com as memórias pessoais associadas a um trajecto migrante individual e familiar, mas também com a imagem sempre desfasada de um “eu” dada pela fotografia. Ou, mais precisamente ainda, tornou-se sintoma de como as propriedades físicas ou a materialidade da fotografia influem, de facto, nos seus sentidos sociais ou nos discursos identitários que construímos. Por outras palavras, a imagem tem, efectivamente, uma biografia social; a sua matéria, e a própria degradação dessa matéria, contribuem para a sua densidade polissémica, ou seja, têm a capacidade de afectar os sujeitos e as narrativas que, também a partir das imagens, estes constroem sobre os seus próprios percursos de vida. Se eu quisesse assumir aqui um tom mais específico das ciências sociais, em geral, e da antropologia, em particular, diria que a expressão veio de uma informante de oitenta e quatro anos – Maria Matta – no âmbito da etnografia que desenvolvi no Brasil entre 2015 e 2016. Mas a precisão da descrição tem a vantagem de nos dar uma percepção mais exacta da importância das materialidades fotográficas na construção dessas narrativas sobre o “eu”. Maria Matta, filha de um emigrante português na Amazónia, ao folhear álbuns fotográficos da infância no Acre, no seu apartamento do bairro da Glória no Rio de Janeiro, com um gesto indicativo afirmava então, em 2015, ao olhar um desbotado retrato fotográfico de infância: “aqui já está sumindo eu”.
O segundo original do original das cópias
Se vagamente me lembro de achar, em Junho de 2021, que o ciclo de aproximações e estranhamentos àquelas imagens transatlânticas e às memórias nelas urdidas ali terminava, não me recordo de todo o que, um ano e meio depois, me terá motivado a pensar na possibilidade de uma apresentação de aqui já está sumindo eu ao vivo e em francês, então designada de foto-performance. Dois anos após a primeira apresentação, esta aconteceu, agora, já não online, mas ainda com a presença de uma tela de projeção (agora só parcialmente mediadora das imagens que eu dispunha numa mesa num dos cantos do palco), e já não (narrada, deambulada) em português, mas sim em francês.
Deslocamento, tacteamento, aproximação a essa outra língua, a um outro imaginário e, contexto cultural, marcam, igualmente, a foto-performance aqui já está sumindo eu que teve lugar na Casa de Portugal André Gouveia, na Cité Universitaire de Paris, em Março de 2023.** A folha de sala enquadrava-a da seguinte forma:
aqui já está sumindo eu é uma acção performativa a partir de fotografias encontradas na rua, em casas em vias de demolição e em gavetas, álbuns e caixas de sapatos de famílias portuguesas no Brasil. Em cena está um dispositivo narrativo e visual em cadência de rapsódia, onde as imagens são convocadas enquanto actos postais, derivas, errâncias e fragmentos luminosos.
A performance é uma das propostas resultantes de uma pesquisa que Ana Gandum desenvolveu entre 2014 e 2018 em torno de fotografias que circularam via postal entre o Brasil e Portugal, nos circuitos familiares de portugueses ali emigrados. Esta questiona o estatuto da imagem enquanto recordação a partir do qual se constroem relações à distância e se desenham memórias em comum. Se na tese de doutoramento, em livros de artista colaborativos, em exposições e artigos anteriormente produzidos, a autora explorou diferentes leituras e sentidos nas imagens em circulação em contextos migratórios, em aqui já está sumindo eu preferiu abordar os episódios anódinos, singulares e pessoais dos encontros que teve com pessoas e fotografias ao longo desses anos.
Baseando-se em notas dos diários pessoais e lembranças de lembranças contadas, aqui já está sumindo eu coloca em evidência as relações e fricções entre fotografia e narrativa.
Talvez nessa apresentação tenha faltado acrescentar que a par da captura e transmissão em tempo real na tela, que ocupava boa parte do palco (tela-protagonista), a apresentação ao vivo era igualmente o momento de um registo ou captura em vídeo. Aqui devo expressar o meu agradecimento ao trabalho rigoroso e desmultiplicado de Nina da Silva, que além de ter concebido a cenografia e contribuído para a criação de luz***, também assegurou duplamente a transmissão (impecável) das imagens em “tempo real” e um registo em vídeo já a pensar na montagem final; finalmente, também fez a montagem.
O vídeo
No fundo, o que aqui é mostrado agora (como algo sendo novo não o sendo exatamente) é este registo em vídeo. Discuti-o vagamente com a Nina no processo de criação e ensaios em 2023, mas não me lembro exatamente o que decidimos. Aparentando ser um registo da cena ao vivo, não o é exactamente, ainda que não se pretenda propriamente enganar o (possível) espectador. Não o é, por exemplo, na medida em que a faixa de som da performance foi adicionada à montagem a posteriori (ainda que no momento se trate já de uma acção pautada, narrada por um áudio pré-gravado que apenas toscamente se faz passar por uma narração ao vivo). Há, ainda, planos assumidamente distintos, alternando-se as imagens na mesa com um plano mais geral do palco, e com a projecção na tela. Está legendado em português. As opções de edição de montagem – por exemplo, quando se alterna um plano geral com o plano da mesa, quando surge a minha figura e a dimensão cénica, quando a imagem adentra nos gestos e superfície das outras imagens – ficaram inteiramente a cargo da Nina. Fiquei contente com o resultado, sem, portanto, as ter antevisto com detalhe. E ao rever o vídeo, centrei-me em particular na leitura das legendas em português e na correção da retradução do texto para o seu original, a partir das cópias que são as fotografias copiadas (e os textos ali dispostos também). Uma nova, ligeira, remediação, agora sim, encerrando-se um ciclo (creio).
São estes desdobramentos mediais que neste momento são acolhidos neste site, no lugar do Perphoto, o projecto que foi o ponto de partida para a articulação de um gesto eminentemente fotográfico de revelações de imagens fotográficas, onde apenas tentei escutar ecos da sua nem sempre audível (visível) performatividade inerente.
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* A publicação em três versões de coisas de lá / aqui já está sumindo eu partiu assim dessas duas investigações académicas distintas (a minha e a de Daniela Rodrigues) mas com um universo de pesquisa comum: a circulação de coisas (objectos e fotografias) no contexto transnacional de migrações portuguesas para o Brasil. A terceira versão do livro, editada em 2018 pela Piseagrama, venceu o prémio de melhor ensaio visual pela APA (Associação Portuguesa de Antropologia).
** Tenho a agradecer pela oportunidade de apresentação, apoio e hospitaleiro acolhimento à então directora da Casa de Portugal André Gouveia, actual directora da Cité Universitaire de Paris, Ana Paixão.
*** Criação assegurada pela artista Gisèle Pape, a quem tenho a agradecer pela laboriosa edição sonora adicional.
Ficha técnica da performance
Criação e performance: Ana Gandum
Vídeo e cenografia: Nina da Silva
Criação de luz e técnica de som: Gisèle Pape
Gravação áudio e mistura de som: Filipe Ferraz
Foto de divulgação: Ana Marta
Co-produção: ICNOVA – Instituto de Comunicação da NOVA
Parcerias: Casa de Portugal – André de Gouveia, Camões – Instituto de Cooperação e da Língua
2023
Ficha técnica do vídeo:
Registo e montagem: Nina da Silva
Duração: 49 minutos
Financiamento: ICNOVA – Instituto de Comunicação da NOVA
Parcerias: Casa de Portugal – André de Gouveia, Camões – Instituto de Cooperação e da Língua
2024